domingo, 8 de outubro de 2017

POESIA MATEMÁTICA

Às folhas tantas do livro matemático, um Quociente apaixonou-se, um dia, doidamente por uma Incógnita. 
Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base uma figura ímpar; olhos rombóides, boca trapezóide, corpo retangular, seios esferoides.
Fez de sua uma vida paralela à dela até que se encontratram no Infinito.
"Quem és tu?", indagou ele em ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos. Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram (o que em artimética corresponde a almas gêmeas) primos entre si.
E assim se amaram  ao quadrado da velocidade da luz num sexta potenciação, traçando ao sabor do momento e da paixão retas, curvas, e linhas senoidais nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas e os exetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar, constituir um lar. Mais que um lar, uma perpendicular. 
Convidaram os padrinhos o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro, sonhando com uma felicidade integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones engraçadinhos.
E foram felizes até aquele dia em que tudo, afinal, vira monotonia.
Foi quando surgiu o Máximo Divisor Comum, frequentador de círculos concêntricos, viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela, uma grandeza absoluta, e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais um todo, uma unidade.
Era o triângulo, tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, a mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade e tudo que era espúrio passou a ser moralidade como, aliás, em qualquer sociedade.

                                   (Millôr Fernandes)

Um comentário:

  1. Professor Francisco Chagas bastante de suas postagem criativas e estimuladoras sobre a matemática.Uma área em que nossos alunos precisam ser estimulados...

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